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Celebrações após a vitória da Argentina na Copa do Mundo de 2022.
Celebrações após a vitória da Argentina na Copa do Mundo de 2022.
Índice

Ensaio

Argentina e a nova juventude albiceleste: A “Patria digital”

Os jovens argentinos sabem que querem o país, mas não sabem que tipo de país querem ou podem ter.

Por Felipe Galli9 de agosto de 202636 min de leitura

Leitura aprofundada

Os recentes choques, confrontos e explosões nas redes ocorridos durante a Copa do Mundo de 2026, juntamente com outros fatores relevantes, deixaram a Argentina à porta de uma nova geração de jovens que votarão pela primeira vez em 2027. Esta geração chegará unida por um “patriotismo de trincheira” contra a agressão xenófoba externa, mas ainda profundamente dividida quanto ao futuro em termos políticos, econômicos e sociais.

Em 31 de outubro de 2012, a Argentina ampliou sua participação democrática com a sanção da Lei 26.774 ou “Lei do Voto Jovem”, que reduziu a idade mínima para votar de dezoito para dezesseis anos, com aplicação a partir das eleições legislativas de 2013 e nos comícios subsequentes. Esse evento, defendido na época como um passo rumo à inclusão, parece à primeira vista um fator inocuo no desenvolvimento político posterior (marcado pelo agravamento da crise econômica e cambial, os declínios na esfera social e o aumento da conflictividade e da polarização política). Contudo, na realidade ele se ergue como um ponto de inflexão de alta importância para explicar a situação política atual do país.

Catorze anos após a sanção do voto jovem, entre uma renovação acelerada das coortes demográficas entre eleição e eleição, a explosão das redes sociais como elemento indispensável na vida da maioria, uma sucessão de governos denunciados como fracassados, erráticos ou decepcionantes (nas figuras de Mauricio Macri e Alberto Fernández) e a ascensão de forças disruptivas como o fenômeno Milei, a Argentina vive um fenômeno social muito particular: o desencanto majoritário com a dirigência política e as instituições por um lado e o ressurgimento do reforço à sua identidade nacional por outro.

O presente trabalho tem como propósito analisar a história recente do nacionalismo em cada coorte generacional de eleitores adolescentes desde a sanção do voto jovem até a data, o impacto da irrupção das redes sociais e da globalização, a chegada da seleção argentina de futebol como fator unificador e, finalmente, a erupção nacionalista recente no marco da Copa do Mundo 2026 e seus possíveis desenvolvimentos de cara para o ciclo eleitoral do próximo ano.

Não vamos nos aprofundar em previsões ou assertivas futuras, considerando que a situação atual reclama imediatismo analítico quanto ao fenômeno (que chamaremos provisoriamente de “Patria digital”) mas prudência quanto aos diagnósticos e projeções eventuais. Com este escrito, a ideia é abrir a porta para uma discussão honesta sobre as características do “novo patriotismo” na Argentina, suas diferenças com o discurso oficial anterior e o estado em que a coorte de novos eleitores jovens (de entre 15 e 16 anos na data deste texto) e as forças políticas em disputa chegarão às urnas no próximo ano.

Características e impacto do voto jovem: Por que falar do voto adolescente?

A Lei 26.774 gerou uma nova faixa etária de eleitores de entre 16 e 17 anos que, em conjunto, somam cerca de um milhão de eleitores novos a cada ciclo eleitoral. Embora sua participação não seja obrigatória, ela tem aumentado nos últimos anos, aproximando‑se de proporções similares à participação média dos eleitores de outras idades. E, embora se trate de uma porção pequena habitualmente anexada a uma faixa muito maior (entre eleitores de 16 a 29 anos constitui‑se 24 % do cadastro total), o mais relevante é a geração acelerada de coortes de eleitores adolescentes muito diferentes cada uma da que a precede.

A origem dessa diferença reside no reduzido espaço de memória política que esses eleitores têm, pelo mero fato de sua tenra idade. Limitar‑nos apenas aos eleitores de dezesseis anos, percebemos que a cada ciclo eleitoral o presidente deverá prestar contas a eleitores que tinham apenas doze anos quando foi eleito. Descontando que os casos de politização juvenil precoce são realmente escassos ou minoritários, podemos inferir que esses novos eleitores têm lembranças muito vagas de governos anteriores ao atual. Por isso, explica‑se a volatilidade geral desses eleitores e sua tendência a agir de forma mais reativa que analítica: seu marco de comparação é nulo ou muito baixo.

Entre as variações econômicas e sociais e as mudanças aceleradas que um garoto experimenta ao passar para a adolescência, as coortes de eleitores jovens variam muito entre um ano eleitoral presidencial e outro. A primeira coorte adolescente que votou em 2015 via limitado seu recolhimento político imediato ao mandato de Cristina Fernández de Kirchner, a segunda coorte que votou em 2019 ao de Mauricio Macri, a terceira coorte que votou em 2023 ao de Alberto Fernández (com o agravante de que sua adolescência foi marcada pelo transtorno social da pandemia) e a quarta coorte atual, que sufragará em 2027, chegará com a única lembrança fresca da presidência de Javier Milei.

O comportamento desses eleitores (que explicaremos mais adiante) tem apresentado variáveis sérias, mas que são difíceis de mensurar. De acordo com os dados compilados por CIPPEC/Unicef e CNE em 2015, apenas 58 % dos votantes de 16 e 17 anos compareceram às urnas. Não existem dados que calculem o apoio exclusivo dessa faixa, pois eles são contabilizados como parte de uma coorte maior de 16 a 29 anos, na qual se estimou um apoio majoritário à candidatura de Daniel Scioli.

Esse padrão se repetiu em 2019, nas eleições que deram a vitória a Alberto Fernández. Como em 2015, a maioria da coorte de 16 a 29 anos se inclinou ao peronismo, embora neste caso predomine o repúdio à situação econômica sob o mandato de Macri e a apelação a agendas progressistas então populares entre a juventude urbana (como a onda feminista). Da mesma forma, o único dado disponível sobre o voto adolescente passa por sua participação, reportando‑se um importante aumento em relação a 2015. Um 64 % dos votantes de entre 16 e 17 anos emitiram voto.

Finalmente, a coorte juvenil que votou em 2023 foi a que gerou maiores debates e, pela primeira vez, coloca o foco em seu impacto eleitoral, diante do consenso generalizado de que foram os jovens que impulsionaram a candidatura de Javier Milei e seu posterior ascenso à presidência. Nesse ponto, ainda, a coorte adolescente atingiu seu pico de participação histórica. Na primeira volta, 68,6 % dos menores de 18 anos habilitados emitiram voto, menos de nove pontos abaixo dos 77,1 % de participação nacional total.

A análise topa sérias dificuldades derivadas do escasso acesso a estudos e análises que se foquem diretamente nos eleitores adolescentes. A dificuldade de encontrar dados desagregados especificamente para a coorte de 16 e 17 anos além de sua mera participação e a tendência recorrente de agrupá‑los com os “menores de 30” revelam uma negligência ou cegueira metodológica dos estudos de opinião pública recentes.

Existem explicações para essa falta de literatura que a tornam compreensível: seu reduzido tamanho requer amostras maiores e caras, pesquisar menores de idade é complicado por questões de acesso e o interesse político por uma faixa eleitoral tão reduzida e volátil é escasso. Contudo, é necessário ressaltar que, ainda que se trate de um espaço de eleitores de pequena influência numérica (entre 2 % e 3 % do cadastro), sua composição e características os tornam indefinivelmente diferentes das gerações mais velhas com as quais são agrupados.

Para começar, por não ser possível multar um menor de idade, o voto adolescente na Argentina não é obrigatório, mas opcional. Isso já implica, desde o princípio, uma diferença substancial entre eleitores maiores de idade e menores e tem se refletido no fato de que sua participação permanece sempre inferior à média nacional, embora em crescimento.

Em segundo lugar, o eleitor adolescente (por sua condição de menor) tem um espaço de socialização política muito mais restrito que o de um eleitor maior de 18 anos, limitado às redes sociais e, em menor medida, à influência familiar. Além disso, esses eleitores guardam uma memória dos governos anteriores mais fragmentada e estão numa fase de formação de identidade muito mais intensa e volátil que um eleitor apenas alguns anos mais velho. Para comparar, um eleitor de 16 anos tem diferenças bem mais marcadas com um eleitor de 26 anos do que este tem com um de 36 anos.

Por fim, o comportamento do eleitor adolescente, ao nos restringirmos ao fator disponível de sua participação, revela diferenças enormes em relação ao de seus pares adultos. Enquanto a nível nacional a participação eleitoral tem caído continuamente (de 81 % na primeira volta de 2015 até 77,1 % em 2023), entre os adolescentes ela aumentou de forma exponencial, em sentido contrário aos pares maiores. Esse único dado que temos à mão, o da comparecência, já exige, por si só, um estudo muito mais direto e focalizado do voto adolescente.

Acotados como estamos aos dados disponíveis em matéria eleitoral e às dificuldades metodológicas que implica analisar fenômenos como as tendências nas redes sociais e a esfera digital contemporânea, esperamos que este ensaio sirva, sobretudo, para abrir uma discussão necessária sobre o tema, à espera de que impulsione estudos com metodologias muito mais enriquecidas.

Patriotismo, redes sociais e “sentimento Ezeiza”

Dado que se trata de um país fundado sobre princípios contratualistas e um Estado constituído no imaginário liberal do século XIX com pouco ou nenhum margem para basear‑se em critérios étnicos fechados, na Argentina entende‑se por “nacionalismo” a manifestação ideológica de um patriotismo baseado em valores cívicos e culturais, a par de uma identificação com o Estado, seus símbolos patrios e sua representação externa, podendo ser essa política, social ou esportiva (por exemplo, no caso da seleção de futebol).

No momento da sanção da lei do voto jovem, a Argentina atravessava uma transição na identificação que sua juventude fazia do nacionalismo. Em geral, predominava um sentimento de “patriotismo institucional‑escolar”. Para muitos adolescentes argentinos, o conceito de “Pátria” estava fortemente associado à bandeira, ao hino, à seleção de futebol (que então atravessava uma seca permanente com derrotas sucessivas) e ao ensino, bem como às apelações nostálgicas de seus familiares adultos (Maradona, Malvinas, a democracia, o 1 a 1 nos anos 90). Tratava‑se mais de uma espécie de “patriotismo por dever” que de uma verdadeira efervescência nacionalista, embora houvesse setores que se mostrassem inclinados a isso.

Entretanto, a década de 2010 implicou um salto na revolução digital que tirou milhões de argentinos (sobretudo de classes média e baixa) do isolamento internacional. De acordo com estudos do INDEC, em 2011 apenas entre 42 % e 45 % dos cidadãos argentinos tinham acesso contínuo à internet. Nos anos seguintes, esse percentual ampliou‑se para 56 % em 2015 (ao término do mandato de Cristina Fernández de Kirchner) e para 62 % em 2019 (ao término do mandato de Mauricio Macri).

Pouco tempo depois, a irrupção dos smartphones e a digitalização forçada durante a pandemia aceleraram uma democratização massiva da esfera digital argentina, e ao término do mandato de Alberto Fernández, de acordo com dados da UNICEF, mais de 93 % dos domicílios urbanos do país tinham acesso à internet móvel ou fixa, enquanto mais de 96 % dos adolescentes tinham acesso a alguma forma de consumo digital. Isso passou a incluir jovens de regiões muito mais remotas do interior e habitantes de setores socialmente marginalizados como os moradores de villas de emergência, ainda que com óbvias diferenças de acesso e consumo.

Esse acesso massivo à internet eliminou ou enfraqueceu a influência de barreiras de classe ou região no consumo de muitos adolescentes, ao mesmo tempo que facilitou a difusão de narrativas comumente qualificadas de “globalistas”. Influenciadores, estrelas da cultura pop, visualizações, e um uso cada vez mais enraizado das redes como fonte primária de informação, muito acima dos meios de comunicação tradicionais.

O acesso da imensa maioria dos adolescentes argentinos a material externo e o contato fácil com seus pares em outros países diminuiu consideravelmente a influência de sua base familiar e escolar durante a última fase da década de 2010 até a chegada da pandemia em 2020, onde praticamente toda a socialização fora do lar ficou limitada ao digital, implicando um salto geracional ainda mais severo nas diferenças entre as coortes de 2015 e 2019 em relação às de 2023. Os adolescentes que votaram nas eleições de 2023 não só tinham lembranças muito restritas de períodos de governo anteriores ao de Alberto Fernández, como suas lembranças da vida pré‑pandemia eram infantis.

Além de replicar padrões de consumo de outros países e obter acesso massivo a informação (além das limitações, matizes e ressalvas de cada caso), os adolescentes também puderam contrastar sua realidade com as percebidas em outras nações. A isso somou‑se o deterioramento da situação econômica do país, que desembocou na crise cambial de 2018, agravada posteriormente pelos picos inflacionários da pandemia.

Embora muitos dos aspectos desse patriotismo institucional‑escolar residual tenham continuado e ainda estejam muito presentes na juventude argentina (e o sentimento de “orgulho nacional” sempre se manteve majoritário nas pesquisas realizadas a tal fim), a situação econômica e os contrastes contribuíram para enfraquecer a imagem que muitos tinham do país, fenômeno que os colocou como protagonistas embora tenha afetado em maior ou menor grau toda a população.

Em 2010, em uma pesquisa da Universidade de Palermo junto à TNS Gallup, 94 % dos entrevistados se consideraram “orgulhosos” ou “bastante orgulhosos” de ser argentino. Em 2016, ao momento do Bicentenário da Independência e durante os primeiros meses do governo de Mauricio Macri, outra pesquisa, desta vez da Universidade Nacional de Tres de Febrero via CINEA, revelou que 65 % dos argentinos se sentiam “muito orgulhosos” de sua nacionalidade, enquanto 19 % se declaravam “um pouco orgulhosos”. Apenas 8 % relataram ser “pouco orgulhosos” e um tímido 5 % “nada orgulhosos”.

Para 2023, meses antes das primárias, uma nova pesquisa realizada pela Delfos mostrou que o percentual de argentinos que se declarava “muito nacionalista” rondava 58 %, enquanto “um pouco nacionalista” era 19 % e “nenhum” 10 %. A diferença residia na divisão por idade. Os entrevistados de 18 a 29 anos (entre os quais figuraria a coorte eleitoral adolescente das eleições de 2015 e 2019) foram os menos nacionalistas. O “nenhum” alcançou 23 % entre eles.

Se bem que, novamente, nos deparamos com o fosso metodológico das pesquisas juvenis, o descolamento de opções políticas menos “patrióticas” e a guinada nos discursos políticos dos dirigentes para posições mais “globalistas” foi, durante esse último período, evidente. Se bem que se percebe com maior clareza do lado do antiperonismo (da tese de “abertura ao mundo” defendida por Macri até a agressiva e, às vezes, exacerbada alinhamento de Milei ao trumpismo norte‑americano), também esteve presente no peronismo, com uma apelação mais decidida a agendas do progressismo global (como a defesa do feminismo e dos direitos LGBT) que em alguns pontos do governo de Alberto Fernández adquiriram um caráter quase troncal em seu discurso, o qual inclusive foi alvo de críticas por setores mais conservadores e “ortodoxos” de sua militância.

Diante disso, durante o período da pandemia e de cara para o ciclo eleitoral de 2023, começa a surgir o fenômeno do “sentimento Ezeiza” entre muitos argentinos. De acordo com diversas pesquisas realizadas nas últimas décadas (por meio de medições da Statista e Voices!), o desejo de emigrar subiu ininterruptamente entre 2007 e 2022, atingindo picos de entre 40 % e 50 % em algumas medições durante a pandemia. Entre os jovens de 16 a 24 anos pesquisados, algumas vezes a intenção de deixar o país superou 60 %, antes de experimentar uma queda nos primeiros anos da gestão de Milei. No que se refere às redes sociais, em várias ocasiões se tornou tendência a mensagem “a saída é por Ezeiza”, e durante a campanha eleitoral de Javier Milei, apelou‑se diversas vezes ao slogan “Milei ou Ezeiza”.

Com os dados disponíveis, pode‑se supor, em termos gerais e com a juventude em termos particulares, que a Argentina chegou ao final da pandemia com sua identidade nacional submetida a um crescente questionamento entre a identificação cultural aprendida e o duro pessimismo quanto ao futuro do país.

A Albiceleste, o fenômeno Scaloni‑Messi e o rebrote patriótico “não político”

Em julho de 2021, depois de vinte‑e‑oito anos, a seleção argentina capitaneada por Leo Messi e dirigida por Lionel Scaloni conquistou sua décima‑sexta Copa América e pôs fim a um longo período de seca futebolística para “a Albiceleste”. Essa vitória gerou altas expectativas do que mais tarde seria sua coroação definitiva: a vitória na Copa do Mundo de dezembro de 2022, que implicou o terceiro triunfo argentino na competição e a primeira vez em mais de trinta anos.

Apesar dos históricos intentos de capitalizar politicamente o futebol argentino e de uma vinculação indefinidamente estreita entre futebol e política no país por motivos culturais, o fato é que, em geral, a relação entre o desenvolvimento esportivo da seleção e o desenvolvimento político da Argentina tem sido nula. Isso não significa que a atuação individual dos futebolistas ou o impacto de uma vitória ou derrota no humor social não tenham relevância.

Em 20 de dezembro de 2022, a seleção campeã retornou à Argentina e foi recebida pela maior manifestação de rua já realizada na história do país, com um estimado de cinco milhões de argentinos cobrindo a Área Metropolitana de Buenos Aires. Foi mais do que o dobro da concentração realizada em 20 de junho de 1973, quando Perón voltou do exílio, e superou o recorde anterior. Realizada em um momento de marcadas tensões políticas, pode‑se dizer que nunca antes na história do país foi possível (e é improvável que volte a ser possível) uma demonstração de unidade como a comemoração popular pela vitória no Catar.

Historicamente, a seleção de futebol tem servido como símbolo unificador para muitos argentinos acima das fissuras políticas, embora com ressalvas e matizes claros. Um desses matizes sempre foi a permanente comparação entre Maradona (conhecido por suas polêmicas e opiniões políticas públicas, representativo de setores marginalizados e desfavorecidos) e Messi (visto mais como um expoente de setores mais despolitizados e reservados que se encontram na classe média), bem como as críticas de setores kirchneristas mais militantes aos jogadores que consideram “tibios” ou diretamente “contrários”.

Nesse sentido, para alguns o triunfo de Maradona em 1986 (com especial ênfase nos dois gols contra a Inglaterra poucos anos após a Guerra das Malvinas) e o de Messi em 2022 eram dificilmente comparáveis em termos de impacto simbólico, social e político. Contudo, sugerir que por isso a dupla Scaloni‑Messi não legou um interessante mito nacional para o país seria errado.

As sucessivas vitórias de Messi e Scaloni no Brasil e no Catar se deram no auge do questionamento do sentimento patriótico descrito no apartado anterior, com um esmagador percentual de pessoas desejando emigrar e um descontentamento permanente com a classe política, a situação econômica e o quadro social do país. Do lado de Scaloni, o técnico havia assumido o cargo de forma interina em 2019 e enfrentado uma feroz ofensiva midiática nos primeiros anos de gestão por sua falta de experiência. Do lado de Messi, ao contrário, um lustro de triunfos retumbantes em clubes estrangeiros, atrelados a uma série de fracassos e finais perdidas com a Argentina (especialmente no ciclo de 2014 a 2019) pareciam validar a tese generalizada de que ao argentino “vai melhor quando vai”.

Nesse contexto, ver Messi levantar a Copa do Mundo e Scaloni consagrar‑se como o técnico mais bem‑sucedido da história da seleção rompeu uma longa série de mitos e tabus. De ser um símbolo de que “até os melhores perdem” e que “o argentino triunfa no exterior”, Messi passou a representar a imagem da perseverança, conquistando seus maiores triunfos esportivos no outono de sua carreira. Por sua parte, Scaloni, de ser um total desconhecido “sem experiência”, erigiu‑se agora em símbolo da capacidade de “fechar bocas com tudo contra”. Dois símbolos de sucesso individual mais que nacional, mas sucesso ao fim.

A vinculação política da seleção e a contínua relutância de seus jogadores em expressar diretamente questões nacionais (fora de individualidades pontuais) colheram alguns comentários e críticas. Do lado do kirchnerismo, a falta de posicionamento foi tomada em muitos casos como um posicionamento de fato contra, originado na recusa da equipe em celebrar do balcão da Casa Rosada com Alberto Fernández, replicando as realizadas em 1978 e 1986. Após a vitória de Milei e a nova vitória da seleção na Copa América de 2024, alguns analistas e figuras da militância oposicionista nas redes começaram a ver “a Albiceleste” como um fator de distração social favorável a Milei.

Dessa forma, finalizado o ano 2025 com uma vitória do oficialismo nas eleições legislativas de meio‑período, uma série de triunfos legislativos para Milei (amém das deserções dentro do Partido Justicialista e das intensas lutas internas no espaço opositor pela candidatura presidencial de 2027) e uma atmosfera social "apagada" de cara para a Copa do Mundo de 2026, a situação parecia apontar que esse fator "unificador nacional" se diluiria.

A Copa do Mundo 2026: O sofrimento esportivo e a “campanha anti‑argentina”

A Argentina chegou à Copa do Mundo de 2026 como campeã vigente, devendo disputar um grupo que incluía Argélia, Áustria e Jordânia. No período pré‑Copa e especialmente após o primeiro jogo contra a Argélia (que viu uma vitória de 3 a 0 para a Argentina com um gol anulado para a equipe árabe), começaram a surgir as primeiras mensagens do que mais tarde seria uma dura erupção de ódio público nas redes sociais (mais tarde transferida para fora da esfera digital), primeiro contra a equipe argentina e depois contra o país.

Nas semanas seguintes, inúmeras contas dedicadas à difusão esportiva começaram a divulgar recortes das partidas da seleção argentina, enquadrando os fatos para aparentar um viés arbitral destinado a favorecer o conjunto albiceleste. A isso somou‑se, pouco tempo depois, a conspiração política (dado o alinhamento sólido do governo de Javier Milei com o de Donald Trump, que presidia a potência onde o evento foi organizado) e, finalmente, a questão racial (a agitação permanente da tese da “Argentina racista”, as distorções históricas, o mito do “genocídio negro” e a amplificação de determinados comportamentos por parte de torcedores argentinos), difundida por ativistas europeus e norte‑americanos.

À medida que avançava o campeonato, com a Albiceleste passando confortavelmente pela fase de grupos mas depois sobrevivendo à beira da eliminação com muito sofrimento nos jogos subsequentes (Cabo Verde, Egito e Suíça), os ataques virtuais contra o país se multiplicaram. Um comentário negativo sobre a Argentina em redes como X (antes Twitter) podia alcançar muito facilmente um milhão de visualizações e centenas de milhares de curtidas. O pico veio do histórico jogo contra o Egito, no qual a Argentina conseguiu reverter um resultado de 2 a 0 nos últimos quinze minutos para uma vitória por 3 a 2. Muitas dessas contas amplificaram as declarações acaloradas de Hossam Hassan, técnico do Egito, que protestou sem evidência contra o que considerou uma manipulação arbitral contra ele.

Em questão de dias, a agressividade contra os argentinos percorreu terrenos digitais muito distantes do âmbito esportivo, com ênfase em espaços como X e Reddit. Em grupos de fandom dedicados a unir fãs de estrelas de K‑Pop, séries de anime, arte digital e uma longa lista de ambientes globalizados, foram expulsos ou maltratados diversos adolescentes argentinos, forçando muitos deles a construir redes de apoio próprias. Memes violentos, comentários maliciosos e, finalmente, ataques contra estabelecimentos argentinos em certos países específicos tornaram‑se virais e alcançaram vários milhões de interações. Para muitos jovens argentinos de diversas comunidades, o que antes era um refúgio seguro em sua esfera digital acabou por se transformar em um campo de batalha constante.

Não é propósito deste texto julgar a veracidade ou não da “campanha anti‑argentina”, por ora objeto de debates profundos e polarizadores em diversos âmbitos. Contudo, operaremos sob dois pressupostos nos quais se pode consensuar fatos: 1) a agressão digital desmedida contra usuários argentinos ocorreu; 2) as principais vítimas dessas agressões foram os argentinos com uma vida digital mais fluida. Neste último ponto reside o foco da análise. Os adolescentes argentinos foram, pois, os mais afetados pelo que ocorreu.

De acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria Trespuntozero, 79,1 % dos argentinos acreditam que existe uma campanha contra o país, enquanto 69,2 % acreditam que ela foi organizada do exterior. Diante dessa sensação de agressão coletiva contra a nação, pode‑se perceber a possibilidade de um novo fenômeno: o “patriotismo de trincheira”. O sentimento nacionalista já não passava por um reflexo institucional‑escolar, nem por uma exaltação de um movimento político concreto, nem tampouco pelo sentir compartilhado de uma camisa de futebol, mas por uma reação direta contra o que se considerava uma agressão externa.

Parte dessa onda reativa incluiu a organização de grupos para denunciar eventos de xenofobia no exterior ou relatar conteúdo xenófobo nas redes, até tentativas de organizar “escraches” contra estrangeiros residentes na Argentina que replicaram conteúdo percebido como negativo sobre o país ou (em menor medida) que apoiaram publicamente os rivais esportivos da Albiceleste.

Nesse contexto, a Argentina chegou à semifinal contra a Inglaterra em 15 de julho, partida carregada de óbvias implicações históricas pelo conflito pela soberania das Ilhas Malvinas. O evento, precedido por uma série de controvérsias quanto à proibição de que a torcida levasse material alusivo ao conflito diplomático entre os dois países, concluiu‑se com um histórico fechamento quando os próprios jogadores levantaram uma bandeira com a inscrição “As Malvinas são Argentinas”, colhendo um sólido apoio interno e exacerbando as questões políticas, sociais e digitais que circundavam o evento.

A atuação dos jogadores ao término da partida (que incluiu futebolistas com carreiras em clubes ingleses e gerou pedidos de expulsão ou sanções no Reino Unido) rompeu o mito de uma seleção “apolítica”. O fenômeno Messi/Scaloni deixou de representar um mero exemplo de sucesso individual ou um simples simbolismo esportivo para aderir ao efeito do “patriotismo de trincheira” que boa parte da juventude argentina estava experimentando naquele momento.

Apesar da derrota na final contra a Espanha, a Copa do Mundo de 2026 terminou tendo um impacto muito mais profundo na concepção nacionalista dentro do país. Até mesmo a própria derrota implicou um novo passo para a coorte geracional que sufragará em 2027. A maioria já havia passado mais da metade da vida, desde a infância, sem ver a seleção perder um torneio internacional chave. Com o fim do ciclo de vitórias futebolísticas, o patriotismo renovado pode fazer sua transição natural para outras esferas.

Impacto político: Sem beneficiários claros

Fora do âmbito esportivo, o impacto político total do novo “patriotismo de trincheira” só poderá ser visto em sua totalidade com o tempo (se resultar em algo tangível que impacte elegermente ou se diluir). Não obstante, houveram sinais claros durante a própria Copa, e um exemplo claro para tratá‑lo é o debate sobre a Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada, impulsionada pelo governo de Milei, que obteve aprovação média no Senado poucos dias após o torneio, mas que enfrentou duras modificações, em grande parte derivadas do que ocorreu.

O governo levava meses impulsionando essa legislação, que incluía a quase revogação da Lei de Terras de 2011 (que limitava a titularidade estrangeira de terras produtivas), a modificação da Lei de Manejo do Fogo (permitindo uma mudança de uso do solo mais precoce após um incêndio), a agilização de despejos forçados, a restrição às expropriações, entre outras medidas.

Se bem que a estratégia legislativa do oficialismo nos últimos três anos passou por apresentar projetos muito ambiciosos e tolerar sua “poda” para permitir a aprovação de medidas mais modestas porém “urgentes”, as negociações apontavam que a deserção de senadores peronistas após a vitória oficialista em 2025 e a sequência de triunfos legislativos nos primeiros meses do ano, além de uma mobilização social cada vez mais apática diante da crise interna da oposição, permitir‑iam ao governo aprovar a lei completa.

O debate foi marcado para 16 de julho, apenas um dia após a semifinal. No entanto, a ação dos jogadores ao levantar a bandeira com a inscrição das Malvinas e a reação nas redes assustou setores do bloco “dialoguista” do Senado, com alguns legisladores revertendo seu apoio à lei apenas horas antes do debate. No mesmo 16 de julho, o oficialismo teve de solicitar um quarto intercalar até 6 de agosto, buscando “adiar” o debate para depois da Copa.

Diante do renovado impulso nacionalista, o custo político de aprovar a estrangeirização de terras ampliou‑se consideravelmente. O descontentamento do governo com o gesto da seleção ficou evidente nas tensões entre o oficialismo e a AFA nos dias que antecederam a final, com comentários críticos de Milei ao gesto dos jogadores durante entrevista, e mais tarde transcendendo publicamente que, de a Argentina ter vencido, o plantel teria recusado um encontro na Casa Rosada como fez em 2022.

Quando finalmente o debate foi retomado, em 5 de agosto o oficialismo viu‑se obrigado a retirar completamente o capítulo referente à reforma da Lei de Terras. No dia seguinte, durante a sessão, também eliminou o capítulo sobre a mudança de uso do solo após incêndios. O projeto acabou por obter uma aprovação agônica, com 37 votos a favor e 33 contra.

O episódio ganha relevância pela nula capacidade das forças políticas para apropriar‑se do nacionalismo. Desde o oficialismo, Milei vinha aproveitando o impulso da “campanha anti‑argentina” para tentar impor uma agenda ideológica‑identitária, acusando o governo do Brasil de estar por trás dos ataques nas redes e decretando a expulsão de estrangeiros que insultassem o país ou seus símbolos patrios. Por sua parte, o peronismo tentou erguer a bandeira da defesa da soberania nacional, mas o processo do debate (incluindo a notória ausência da kirchnerista Anabel Fernández Sagasti por motivo de gestação e as discussões estéreis entre militantes e dirigentes) expôs a notável desconexão entre a liderança peronista e a juventude argentina atual.

Em síntese, a onda do “patriotismo de trincheira” se caracteriza (além de seu caráter cada vez mais transversal) por sua orfandade política. As pesquisas continuam mostrando forte repúdio público aos partidos políticos tradicionais e, ao mesmo tempo, um constante pessimismo quanto ao desenvolvimento econômico do país sob o governo de Milei. Por outro lado, as opiniões sobre a atuação da seleção durante a Copa refletem uma aprovação avassaladora, com apoios variando de 66 % a 83 % dependendo da pesquisa. A “onda albiceleste” conseguiu obter suficiente poder de rua para precipitar um revés político para o governo. Contudo, os dirigentes da oposição se mostraram desconectados de um papel protagônico, operando exclusivamente como um freio institucional.

Oficialistas vs. opositores: Um patriotismo diferido

O fenômeno do “patriotismo de trincheira” foi bastante transversal, com epicentro nos jovens e maiores consequências nos adolescentes que votarão pela primeira vez em 2027. Contudo, cabe esclarecer que esse patriotismo vem diferido pelos óbvios matizes de ideologia, classe social ou região que nunca desaparecem totalmente. No que tange ao eventual impacto político, podemos agrupar as duas visões do “novo patriotismo” em duas porções: a oficialista (alinhada ao discurso do governo de Milei) e a oposicionista (hoje politicamente descabeçada, mas com expressões de voto provável entre o peronismo e a esquerda).

Do lado do oficialismo, percebe‑se uma retórica que reivindica o país como bastião de ideais ocidentais, conservadores ou economicamente liberais e um repúdio ao ódio estrangeiro como um “ataque da cultura woke”. O discurso aqui vem mais definido pelo fato de que o presidente tem se expressado nesse sentido, com consequências no âmbito diplomático (como a relação com o Brasil).

Do lado da oposição, a retórica passa por uma denúncia de agressão por parte de poderes estrangeiros cujo objetivo seria “dominar” o país, com ênfase em potências como os Estados Unidos e Israel e, em menor medida, na Europa. Nesse sentido, denuncia‑se o governo de Milei como cúmplice dessa suposta iniciativa e reivindica‑se tanto a defesa da soberania territorial quanto o repúdio às políticas liberais.

Os elementos comuns entre ambas as visões são basicamente os mesmos: reivindicação dos símbolos patrios, do hino, da bandeira e da seleção de futebol e apelo conspiratório a uma “agressão organizada do exterior” contra o país. Contudo, o que difere suas visões políticas (tanto em termos econômicos e institucionais quanto na construção do “inimigo discursivo”) anula qualquer entendimento.

De uma posição oposicionista (e com mais dureza de um ponto de vista peronista) é fácil descartar a visão do discurso nacionalista sob a ótica libertária como um patriotismo performativo, usado apenas para justificar o governo. Da mesma forma, da perspectiva oficialista já se tem incorrido em desqualificar o discurso opositor como uma exaltação ao kirchnerismo ou ao peronismo (em muitos casos de forma ingênua, ao considerar que falamos de vários eleitores que eram crianças durante o último governo peronista).

Mas, apesar das consideráveis diferenças de discurso, ideias e nível de entrega real desses novos eleitores em suas duas grandes variantes (a oficialista e a oposicionista), no que tange à juventude, é possível perceber que se trata de um resultado derivado do mesmo fenômeno: o aumento da auto‑identificação patriótica em relação às coortes geracionais prévias mais globalizadas.

Rumo a 2027: Quem poderia capitalizá‑lo?

De cara com um eventual processo eleitoral, analisar o potencial de ação da coorte juvenil de 2027 é extremamente difícil, senão impossível, por questões de lejanã, faltando mais de um ano para a próxima eleição, e pela volatilidade geral.

Portanto, o máximo que se pode fazer é estudar quais fatores a favor e quais contra têm as principais forças políticas do país. Por questões de espaço e incerteza ante possíveis candidaturas, limitamo‑nos a quatro: Milei, o peronismo, as terceiras forças potenciais e a esquerda.

Milei e os libertários:

  • Prós: O oficialismo goza da que, de longe, é a estrutura mais afinada em matéria de redes sociais, ao menos hoje. Sua capacidade de alcançar eleitores mais jovens foi crucial nas eleições de 2023 e 2025 e, embora se perceba um certo desgaste na base de eleitores que levou Milei à presidência, a maioria das pesquisas consideram que o presidente ainda conta com apoio importante entre o voto jovem, ao mesmo tempo que preservaria o respaldo do antiperonismo tradicional. Sua apelação a um “nacionalismo performático” baseado na restrição migratória ou na exaltação simbólica de certas medidas pode favorecê‑lo entre jovens com um patriotismo mais baseado em sentimentos explosivos que em um nacionalismo complexo.
  • Contras: Em 2023, Milei beneficiou‑se da irrupção de uma coorte juvenil influenciada pelo repúdio à classe política estabelecida, à alta inflação e ao colapso do nacionalismo ou sua menor importância frente ao panorama socioeconômico imediato. Quatro anos depois, Milei chegará às urnas enfrentando uma nova coorte cujo recolhimento político majoritário foi seu governo e imagens muito vagas do de Alberto Fernández, com dificuldades para reter a coorte prévia e, após ter administrado o país por quatro anos, a bala da novidade política que representou no ciclo anterior já terá sido gastada. Se nos próximos meses não houver uma mudança marcada na situação social, espera‑se que muitos eleitores jovens reajam com um “voto de bronca” por imediatismo, tal qual o que sofreram seus dois predecessores imediatos na presidência. A apelação a um passado negativo ou a uma herança complicada é nula e sem efeito entre eleitores que não a recordam. Além disso, muitos dos agentes do oficialismo nas redes sociais mostram uma tendência agressiva e violenta que pode espantar esses novos eleitores. Tentar “kuka” um adolescente que tinha apenas doze anos quando Milei foi eleito demonstra que a incapacidade do governo de aceitar críticas pode complicá‑lo com eleitores mais “rebelde”.

O peronismo:

  • Prós: O peronismo tem um histórico sólido no manejo do discurso nacionalista, que tem sido um dos pilares inamovíveis do movimento desde seu surgimento em 1945. Um dos principais fatores que explicam a contínua sobrevivência do espaço político, apesar de suas constantes contradições, mudanças de discurso e remendos caóticos de lideranças, tem sido sua habilidade de mimetizar‑se com a identidade nacional do momento (apelação permanente a símbolos patrios e forte capacidade de adaptação dos ventos do momento à exaltação da história e das causas nacionais). Seu discurso de defesa dos recursos naturais, da soberania territorial e dos direitos sociais, bem como seu possível diferenciamento discursivo da esquerda internacional (que em outros tempos foi um lastro ou complicação) lhe serve para apelar a gerações progressistas desencantadas com a retórica global. Além disso, sua estrutura política sólida em todo o país e a certeza generalizada de que se trata da única força capaz de derrotar Milei articulam, por defeito, o voto opositor.
  • Contras: A habilidade do peronismo de manejar o discurso nacionalista choc​a‑se com seu desgaste e sua comprovada incapacidade de apelar ao eleitorado jovem, como se viu nas campanhas eleitorais mais recentes. Estratégia de redes sociais deficiente, tendência ao discurso paternalista e exaltação de símbolos ou lideranças que para a juventude têm escassa relação com seu panorama atual. Para muitos eleitores adolescentes, Perón e Evita são pré‑história e Néstor e Cristina a Roma Antiga. A única lembrança real que têm do peronismo governando é marcadamente negativa (o governo de Alberto Fernández) e, embora seja uma lembrança vaga (associada à infância), o peronismo chega a 2026 demonstrando poucos passos para se diferenciar dele. Para muitos eleitores (e sobretudo para os mais jovens), o peronismo é o mesmo espaço político desgastado, errático e dividido que entregou o poder a Milei em dezembro de 2023. É compreensível que não “entusiasme” nem “encante” demais, como se tem criticado em múltiplas ocasiões Axel Kicillof e outras de suas possíveis figuras. Isso sem dúvida representa uma complicação para derrotar um oficialismo que domina o discurso juvenil mesmo em um contexto desfavorável.

Terceiras candidaturas dissidentes

  • Prós: Embora ainda seja muito cedo porque o reordenamento do panorama político para as eleições de 2027 não tenha começado, o desalinhamento das coortes geracionais em relação aos mandatos presidenciais dos predecessores de Milei abre a porta ao surgimento de outro terceiro surgido das dissidências do peronismo e do antiperonismo. Um bom manejo dessa “onda patriótica” por parte de dirigentes alheios ao atual panorama e ligados a forças provinciais ou a partidos nacionais alheios ao governo e à oposição maioritária poderia representar uma janela de oportunidade.
  • Contras: Dos resíduos do PRO e da União Cívica Radical até o Partido Socialista ou os peronismos provinciais, os partidos tradicionais são os mais afetados pelo desgaste e nenhum reúne alta confiança perante o eleitorado. A isso soma‑se que seu manejo do discurso nacionalista é bastante fraco e que muitos desses partidos são percebidos como opções “tíbias”, “fracas” ou até mesmo “marionetes” diante do predomínio de posições retóricas mais duras e agressivas. Muitas dessas forças hoje ocupam governadorias e prefeitos, o que as torna alvos de críticas diretas que anulam sua capacidade de constituir uma alternativa “superadora”.

A esquerda:

  • Prós: De mãos de Myriam Bregman, o Frente de Izquierda vem progredindo em algumas pesquisas, sobretudo entre eleitores opositores jovens, que a veem como uma força política mais “sincera e direta” que o peronismo. A imagem positiva da deputada trotskista tem se consolidado pelo descrédito de outras forças políticas, bem como pela percepção de continuidade e estabilidade do FIT perante outros partidos e coalizões políticas. O fato de estarem vinculados a um movimento internacional não muito poderoso (o FIT argentino é, de longe, o partido trotskista mais electoralmente bem‑sucedido da era contemporânea) pode beneficiá‑los da mesma forma que o peronismo se beneficia de suas diferenças com a centro‑esquerda internacional. Nas últimas semanas, no meio da euforia da Copa e das protestas contra a agenda legislativa do governo, figuras do partido apelaram a elementos “nacionalizadores” do discurso, como a reivindicação da causa Malvinas em armar o anti‑imperialismo.
  • Contras: O dogmatismo trotskista e marxista do FIT complica sua capacidade de apelar a um discurso baseado no nacionalismo ou patriotismo, o que a coloca em desvantagem frente ao peronismo em uma campanha eleitoral avançada. O histórico de muitos de seus dirigentes (incluindo a própria Bregman) de repúdio aos símbolos patrios gera arquivos sensíveis difíceis de reverter. Embora seu discurso radical possa captar eleitores jovens que não deem importância à viabilidade de suas propostas, a falta de um programa político definido e seu repúdio a assumir uma retórica mais “patriótica” que simplesmente “anti‑imperialista” pode acabar jogando‑os contra.

Conclusão

Com base no que foi visto, podemos concluir que, em termos gerais, a coorte geracional que completará 16 anos nos próximos meses e emitirá seu primeiro voto no ano que vem se caracteriza por três componentes que, embora não nos deem dados sólidos, podem influenciar muito seu voto:

  • Primeiro, o pessimismo e a ansiedade econômica como elemento crônico de suas vidas. Esses jovens não têm lembranças sólidas de um período de bonança ou estabilidade que lhes permita fazer associações nostálgicas. Sua infância e adolescência viveram-se em etapas de crise ou transição econômica.
  • Segundo, como consequência do primeiro, um descrédito permanente do discurso político tradicional entre eles. Sem ninguém que os represente, são um caldo de cultivo ideal para o eventual ascenso de opções rupturistas ou (ainda mais preocupante) o disparo de um sentimento antipolítico que possa tornar‑se radical ou apático.
  • Terceiro, um patriotismo renovado (que dista bastante das coortes geracionais anteriores, apático tanto no sentido político quanto no nacional) mas, sobretudo, reativo (em torno da trincheira de “defender a bandeira do ataque externo”), desvinculado da política (não deve nada a ninguém) e diferido por ideologia quanto ao que toca a isso (sabem que querem o país, mas não sabem que tipo de país querem ou podem ter).

É pelo menos fascinante determinar que o possível retorno dos argentinos a uma concepção mais “nacionalista” ou “patriótica” derive precisamente de fatores que foram cruciais em sua decadência, sem ir muito além da esfera digital. O que, em seu momento, serviu como ponte conectora de milhões de adolescentes argentinos com o mundo exterior, acabaria por ser o pilar do “novo patriotismo” argentino.

É possível questionar muitas coisas sem ter tantos dados concretos (ausência de pesquisas que cubram especificamente essa faixa eleitoral e com a pressa de escrever um ensaio rápido sobre eventos que acabaram de acontecer). Contudo, é inegável o impacto político imediato, se levarmos em conta o revés legislativo do governo, o fracasso da oposição em capitalizá‑lo e os choques diplomáticos que se registraram. Não se trata mais tanto de questionar “o que houve” e “o que não houve”, mas de estudar “como nos afeta o fato de tantos argentinos acreditarem que houve”.

Este panorama geral pelos acontecimentos que rodearam a Copa do Mundo de 2026, o voto jovem e os últimos acontecimentos políticos no governo de Milei deixa um número incontável de perguntas em aberto de cara para 2027. Como votarão esses jovens? Quanto impactará a percepção de ódio externo no seu desejo de emigrar ou ficar? Que opções políticas (novas ou antigas) podem capitalizar a “onda albiceleste”?

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