Índice
- O Orientalismo do Jasmim
- Dois Olhares sobre a "Revolução Tunisiana"
- A Teoria do Golpe de Palácio e o Papel do Aparelho de Segurança
- A Mão Estrangeira
- A Crítica de Aziz Krichen
- Os Critérios de Peter Calvert
- A Situação Revolucionária face ao Desfecho Revolucionário
- Revolução Política face a Revolução Social
- O Colapso do Pacto de Segurança de Béatrice Hibou e a Superação das Novas Elites
- Quando a Miséria Paralisa as Revoluções
- A Armadilha das Deficiências Pós-Revolucionárias
- A Modelização do Golpe face ao 14 de Janeiro
- Michel Dobry e a Dessetorialização Conjuntural
- A Miragem da Tabula Rasa
- Da Desconexão das Elites
- A Ascensão da Narrativa Restauradora
- O Momento Bonapartista
- Bibliografia
Teoria
A miragem revolucionária?
O que aconteceu durante as revoltas de dezembro de 2010 e janeiro de 2011?
https://conciencia-democratica.org/articulos/el-espejismo-revolucionario?lang=ptPor Mortadha Ghaliounji28 de agosto de 202624 min de leitura
Leitura aprofundada
Para compreender o que ocorreu na Tunísia desde 2011, devemos partir de uma pergunta aparentemente simples: o que aconteceu durante as revoltas de dezembro de 2010 e janeiro de 2011? Uma revolução? Uma intifada? Uma simples mudança de regime? Ou, como alguns argumentaram posteriormente, um golpe de Estado?
Por trás desta sutileza linguística subjaz um debate sobre a natureza dos acontecimentos e as suas consequências políticas. Este artigo, o primeiro de uma série de quatro análises, retoma esta batalha de narrativas e procura compreender como a forma como os eventos de 2010-2011 foram denominados contribuiu para configurar e, posteriormente, para limitar a transição tunisiana.
O Orientalismo do Jasmim
No dia seguinte ao 14 de janeiro de 2011, a Tunísia ficou envolvida numa disputa semântica destinada a qualificar a natureza exata do movimento de protesto que se manifestara entre 17 de dezembro de 2010 e 14 de janeiro de 2011. A expressão que se impôs na narrativa mediática foi a quase poética "Revolução do Jasmim".
Esta metáfora floral não era, contudo, nova: já havia sido esboçada, de forma fugaz, para classificar o "golpe de Estado médico" de 7 de novembro de 1987, pelo qual o primeiro-ministro Ben Ali depôs o presidente Bourguiba. Mas naquele momento o termo não conseguiu enraizar-se no imaginário popular.
Só em janeiro de 2011, após a sua fulgurante propagação nas redes sociais (tanto dentro da Tunísia como no estrangeiro), é que a expressão ganhou uma segunda vida para designar o levantamento popular, antes de se tornar a denominação canónica da queda do regime.
No entanto, esta etiqueta floral, à semelhança da "Primavera árabe", suscita fortes reservas: critica-se-lhe o facto de disfarçar a dureza da realidade sob conceitos importados, devedores de um certo orientalismo. O jasmim, pelas suas conotações de pureza, doçura e harmonia, remete para as transições aveludadas e relativamente pacíficas da Geórgia (Revolução das Rosas) ou de Portugal (Revolução dos Cravos).
Ora, esta leitura edulcorada contrasta com a tragédia vivida em solo tunisiano, onde a repressão ceifou centenas de vidas e deixou milhares de feridos. Por isso, a consciência popular substituiu-a maciçamente pela expressão "Revolução da Dignidade" (Al-Karama), mais consentânea com a reivindicação moral e social de que era portador o movimento.
Se a existência de uma "revolução tunisiana" gozou inicialmente de amplo consenso, esta unanimidade não tardou a ruir, pois nos meses e anos seguintes ao 14 de janeiro a controvérsia estendeu-se a todas as frentes teóricas: histórica, ao questionar a veracidade do relato dos factos; sociológica, ao avaliar se as transformações estruturais do Estado validavam o conceito de revolução; filosófica, ao indagar se a intenção original dos insurgentes não fora desvirtuada; jurídico-política, sob o impulso dos remanescentes do antigo regime, que questionam tanto a legitimidade legal como a eficácia desta transição.
Dois Olhares sobre a "Revolução Tunisiana"
Dessas controvérsias emergiram duas posições principais.
A primeira nega absolutamente o facto revolucionário, para não ver nele mais do que um golpe de Estado. A segunda concede a sinceridade do levantamento, mas afirma que a sua finalidade naufragou numa confiscação.
Estas leituras foram desqualificadas pela coligação no poder durante a transição sob a cómoda etiqueta de simples deriva "contrarrevolucionária".
Embora seja inegável que algumas dessas análises foram forjadas por próximos do antigo regime para debilitar a edificação da Segunda República, seria enganador atribuir o conjunto dessas questões a uma simples empresa de malevolência.
Por isso, é necessário examinar estas teses pelo que propõem, sem as rejeitar completamente devido às posições políticas dos seus autores, mantendo-se atento, ao mesmo tempo, aos vieses políticos que puderam ter influenciado a sua interpretação dos factos.
Tanto mais que é precisamente ao abandonar esses argumentos com desprezo, recusando-se a discuti-los, que eles se instalam de forma insidiosa e acabam por erigir-se, pouco a pouco, em verdades indiscutíveis na memória coletiva.
A Narrativa do Golpe de Estado
A Teoria do Golpe de Palácio e o Papel do Aparelho de Segurança
A primeira tese, que nega qualquer dimensão revolucionária ao 14 de janeiro, aborda estes acontecimentos sob o prisma do golpe de Estado.
Embora conceda que Sidi Bouzid e arredores foram efetivamente o palco de um protesto popular (qualificado na época de "intifada"), por vezes sincero e por vezes manipulado, recusa-se a ver nele um processo revolucionário.
Para os adeptos desta leitura, a prova do golpe de Estado reside na opacidade e nas zonas de sombra que envolvem os bastidores daquele dia decisivo.
Os relatos de altos dignitários da época e os testemunhos do entorno presidencial sugerem, por vezes, que a queda do regime foi menos o produto de uma vaga popular do que o resultado de decisões do aparelho de segurança.
No centro desta sequência política encontra-se o papel de Ali Seriati, então diretor-geral da segurança presidencial, acusado de ter convencido o presidente Ben Ali a embarcar no avião presidencial com destino a Jeddah, na Arábia Saudita, para pôr a família a salvo, com a intenção de regressar no dia seguinte. Esta viagem selou, no entanto, o destino do presidente — que nunca mais regressaria à Tunísia.
Esta viagem sem retorno levou numerosos atores, entre eles Akram Azouri, advogado de Ben Ali, a denunciar uma maquinação militar e de segurança orquestrada de princípio a fim.
Segundo esta tese, o aparelho de segurança teria encenado e dramatizado deliberadamente ameaças fictícias (o cerco das residências presidenciais, o sobrevoo de um helicóptero suspeito, a aproximação de embarcações marítimas e um complô de assassinato iminente por parte de um membro da sua guarda próxima) com o único fim de gerar pânico no chefe de Estado e forçá-lo ao exílio.
Por sua vez, Seriati defendeu-se recordando que existia um caos informativo que fez com que o dia fosse governado pelo pânico e pela paranoia.
Ele próprio está convicto de que estava a ocorrer um golpe de Estado.
O primeiro sinal de alarme soou no aeroporto de Tunis-Cartago, onde o comandante da Brigada Antiterrorismo, Samir Tarhouni, tomou a iniciativa de interceptar e deter membros da família da esposa do presidente antes de poderem fugir.
Esta detenção, efetuada por uma unidade de elite, foi percebida por Seriati como o sinal de que já não podia garantir a proteção da família presidencial, o que, somado aos rumores de helicópteros ou embarcações suspeitas em torno do palácio, acelerou o pânico.
O mecanismo acelerou-se imediatamente após a descolagem do avião: a declaração de vacância do poder por parte de Mohamed Ghannouchi na televisão, seguida da declaração do exército nacional, que se autoproclamou "guardião da revolução", alimentou a ideia de um golpe de palácio.
A Mão Estrangeira
A isto acrescentar-se-ia uma variável estrangeira de peso, frequentemente invocada pelos defensores da tese do golpe de Estado para explicar a audácia do exército e das forças de segurança.
É aqui que se insere a análise do intelectual Mezri Haddad, que rejeita a tese de uma revolução espontânea para ver nela um movimento programado.
Segundo ele, a revolta popular teria sido capitalizada por uma "aliança de interesses de alto risco" entre o eixo "neoliberal" ocidental e a corrente islamista.
Este plano pretendia abrir caminho para a queda da Primeira República, apoiando-se nas redes sociais, nos partidos de oposição com os quais os Estados Unidos mantêm relações desde o início dos anos 2000, e nos meios influentes como a Al Jazeera, com o objetivo de instalar as forças islamistas no poder.
O Julgamento do Levantamento Confiscado
A Crítica de Aziz Krichen
Outro foco de controvérsia se abriu para disputar a natureza da "revolução", especialmente por parte dos defensores do "levantamento confiscado", que sustentam a sua crítica em critérios de ordem sociológica e histórica.
É o caso da análise formulada por Aziz Krichen, sociólogo, figura da esquerda tunisiana e em 2012 conselheiro do presidente da República sob a bandeira do Congresso para a República (partido de centro-esquerda, populista).
Numa intervenção de 2013, Krichen denuncia duas realidades que mancham a narrativa revolucionária.
Por um lado, coloca uma objeção de ordem programática, ao afirmar que as manifestações careciam de um projeto de sociedade concreto ou de um programa político definido para o futuro, e que apenas convergiam para o objetivo imediato de derrubar o regime.
Por outro lado, corrobora a ideia de que o desfecho do 14 de janeiro se assemelha a um exílio imposto ao presidente pelo seu próprio entorno.
Em 2014 vai mais longe, qualificando explicitamente o acontecimento de golpe de Estado, orquestrado por círculos do poder para absorver a ira da rua e ganhar tempo precioso face ao levantamento.
Para além da queda do autocrata, Krichen formula um diagnóstico severo sobre o papel das novas elites da transição.
Segundo ele, as forças políticas chamadas revolucionárias (tanto islamistas como populistas), longe de desmantelarem o clientelismo e o sistema financeiro herdados da era de Ben Ali, optaram antes por acomodar-se a eles.
Desta perspetiva, a "revolução" de 2011 aparece triplamente comprometida: primeiro minada antecipadamente por um défice de visão, depois confiscada e instrumentalizada pela elite do regime, para finalmente ser traída por aqueles que precisamente pretendiam encarnar a sua esperança.
Esta tese do desencanto e da responsabilidade dos aparelhos partidários goza de uma considerável ressonância popular. Testemunha-o um inquérito da Emrhod Consulting realizado em dezembro de 2020, segundo o qual 71% dos tunisianos atribuía diretamente o fracasso da revolução aos partidos políticos.
Os Critérios de Peter Calvert
Esta leitura não carece, em definitivo, de pertinência científica, e coincide com as análises de numerosos politólogos, como Peter Calvert, que identifica quatro critérios fundamentais para caracterizar uma revolução.
Este processo exige, em primeiro lugar, que a direção política do Estado se desacredite aos olhos da população ou de setores-chave; que se produza uma mudança de governo num momento preciso mediante o uso ou a ameaça da força armada; que um mito político confira ao novo poder uma legitimidade a curto prazo; e, finalmente, que se aplique um programa de mudança mais ou menos coerente dentro das instituições políticas e sociais.
Se bem que parte desses critérios se cumpra na revolução tunisiana, há que reconhecer que uma parte não desprezível não foi alcançada, em particular o último.
Nem o levantamento da rua nem os governos sucessivos levaram avante um projeto de transformação estrutural preciso, e muito menos coerente, condenando a transição a desenvolver-se de forma essencialmente intuitiva e contextual.
A esta ausência de visão programática acrescenta-se uma anomalia histórica: a falta de uma verdadeira transferência do poder nesta transição.
Na realidade, foram os quadros administrativos e políticos do antigo partido único que conduziram a transição, esforçando-se por manter uma legalidade formal, embora estas equipas tivessem de incluir figuras da oposição histórica para consolidar a sua legitimidade.
Esta crítica também ressoa parcialmente com a análise marxista — da qual Krichen parece estar imbuído —, que atribui um valor central à existência de um projeto de sociedade e de uma práxis consciente para que um protesto mereça plenamente o nome de revolução.
A visão de Aziz Krichen transcende, portanto, a simples postura política para se inscrever numa abordagem mais científica.
Pensar o Processo Revolucionário
A Situação Revolucionária face ao Desfecho Revolucionário
Duas análises estruturais provenientes da sociologia política permitem, além disso, desenvolver este ponto de vista.
Em primeiro lugar, o próprio Charles Tilly opõe-se às visões demasiado restritivas da revolução, em particular à de Calvert, que, ao exigir o cumprimento cumulativo de um programa de mudança, a instauração de um mito ou uma transferência efetiva do poder, reduz a revolução aos seus resultados finais, impedindo assim analisar o processo enquanto se está a desenvolver.
Torna-se então impossível identificar uma revolução antes que o conflito tenha concluído por completo; Tilly prefere por isso distinguir entre a "situação revolucionária" e o "desfecho revolucionário".
A primeira define-se simplesmente pelo aparecimento de oposições rivais que colocam reivindicações incompatíveis, pelo forte apoio popular concedido a esses aspirantes, e por um momento de inflexão caracterizado pela mobilização de classes até então marginalizadas (em 2010-2011 foram precisamente os jovens, os desempregados e as populações das regiões interiores que encarnaram o motor da "revolução").
A esta situação deve seguir-se um desfecho revolucionário, isto é, a transferência do poder, que se produz mediante a deserção das elites do sistema, a deserção do exército e a tomada de controlo efetiva do aparelho do Estado por parte das forças revolucionárias.
Ora, é precisamente neste ponto que se concentra o reparo de Aziz Krichen às forças políticas da transição. Contrariamente ao esquema em que os insurgentes são chamados a conquistar o antigo sistema para edificar um novo, estas forças abdicaram da sua vocação revolucionária para se juntar ao aparelho existente e acomodar-se a ele.
No entanto, mesmo à luz da análise de Charles Tilly, os acontecimentos de janeiro de 2011 não podem ser reduzidos a um simples golpe de Estado.
Para Tilly, o golpe de Estado é um conflito que opõe atores situados no cimo do Estado, sem divisão da autoridade pública. Termina com uma simples mudança de dirigentes, enquanto o sistema político permanece igual.
Ora, desde os primeiros passos da transição tunisiana, o poder foi efetivamente arrancado à elite sainte para ser confiado a novas autoridades sob uma nova "mini-constituição".
Embora não se possa falar da "grande revolução" definida por Tilly (por falta de uma rutura brutal e total da ordem social, à maneira da experiência bolchevique ou iraniana), o episódio também não tem nada de uma "revolução silenciosa".
Revolução Política face a Revolução Social
A segunda análise sociológica de interesse é a de Theda Skocpol, que teoriza uma distinção entre "revolução política" e "revolução social".
Enquanto a primeira transforma as estruturas do Estado sem alterar as hierarquias de classe, a segunda define-se por uma mutação rápida e conjunta das estruturas estatais e socioeconómicas, impulsionada por levantamentos populares surgidos de baixo, e avalia-se em função do sucesso dessas transformações.
Ora, se numerosos autores observam mudanças sociais na Tunísia pós-2011 (em particular o surgimento de um cidadão ativo e de uma relação completamente renovada com a autoridade pública), é forçoso constatar que a maior parte das reivindicações sociais não foi levada a termo.
Pelo contrário, a precariedade e as disparidades regionais agravaram-se frequentemente durante a transição, uma constatação partilhada por uma ampla maioria de cidadãos, já que 67% dos tunisianos considera, segundo um inquérito da Sigma Conseil de dezembro de 2020, que a situação geral piorou depois da revolução.
Assim, se a revolução tunisiana falhou na sua função de transformação social, não deixa de ser, sob o prisma da tipologia de Skocpol, uma revolução política.
A Rutura do Pacto de Segurança e a Armadilha da Questão Social
O Colapso do Pacto de Segurança de Béatrice Hibou e a Superação das Novas Elites
Para compreender as raízes deste impasse social, convém analisar o que Béatrice Hibou teorizou sob o conceito de "pacto de segurança" entre o cidadão e o Estado.
Sob o mandato de Ben Ali, este "compromisso" informal apresentava-se como um escudo protetor contra os perigos de uma cultura política considerada perigosa (como o islamismo, o populismo ou as incertezas da globalização), em troca da submissão e da docilidade dos tunisianos.
Por este meio, o Estado erigia-se em garante de um modelo providencial, paternalista e clientelista. O erro das forças políticas da transição foi querer renovar este pacto no terreno económico para consolidar a sua própria legitimidade.
Para garantir uma paz social precária e assegurar dividendos eleitorais imediatos, as novas elites capitularam constantemente perante reivindicações redistributivas imediatas, prometendo resultados materiais objetivamente inalcançáveis e distribuindo subsídios que já não tinham meios para financiar.
Mas este sistema de renda e endividamento, que já mostrava os seus limites e as suas primeiras fissuras sob o antigo regime — visíveis desde as greves de Gafsa em 2008 —, atingiu as suas fronteiras financeiras a uma velocidade fulgurante sob a Segunda República.
Incapaz de sustentar este ritmo de redistribuição, o Estado de transição asfixiou as suas próprias finanças públicas, agravando a crise económica e mergulhando as classes médias e populares numa precariedade crescente.
Quando a Miséria Paralisa as Revoluções
É precisamente no colapso deste pacto de segurança reativado que a evocação de Hannah Arendt se torna pertinente.
Quando o pacto de segurança colapsa por falta de recursos, a "questão social" ressurge na sua forma mais destrutiva: a da miséria pura e da urgência vital.
Hannah Arendt demonstrou magistralmente que a questão social tem, historicamente, o infeliz hábito de se impor sobre a questão das liberdades públicas.
Quando os indivíduos são oprimidos pela pobreza, a luta pelos direitos constitucionais e o pluralismo político é relegada para o estatuto de luxo abstrato e estéril.
Para escapar à precariedade, os cidadãos mostram-se então dispostos a sacrificar as liberdades recentemente conquistadas em troca de um governo que funcione ou que prometa resultados sociais imediatos.
A Armadilha das Deficiências Pós-Revolucionárias
A partir daí, o fracasso do contrato social assesta um golpe fatal na transição, ao deixar sem resposta a questão social, o que acaba por paralisar a própria revolução política. Esta constatação, caracterizada pela continuidade das elites administrativas e pelo ressurgimento de reflexos autoritários, coloca-nos perante um paradoxo.
Avaliar o 14 de janeiro unicamente a partir dos seus resultados imediatos — isto é, pela sua incapacidade de gerar uma transformação estrutural da sociedade — tende a deslegitimar a sua natureza revolucionária. Se a ordem socioeconómica herdada do antigo regime sobrevive à queda do ditador, a rutura de 2011 pode então continuar a parecer, para alguns observadores, insuficiente.
É precisamente esta distorção entre a intensidade da mobilização popular e a relativa conservação do aparelho do Estado que reativa a pertinência da tese do golpe de Estado.
Por isso, para escapar às análises que consistem em julgar o processo unicamente pelas suas deficiências pós-revolucionárias, é indispensável submeter o modelo do golpe de Estado a uma confrontação com o 14 de janeiro.
Desmontar a Tese do Golpe de Estado
A Modelização do Golpe face ao 14 de Janeiro
A definição do golpe de Estado que se encontra nos politólogos apoia-se tradicionalmente em cinco critérios fundamentais: primeiro, os autores do golpe devem pertencer ao aparelho do Estado, o que constitui a dimensão interna; segundo, deve existir neles uma vontade absoluta, direta e exclusiva de se apoderar do poder; terceiro, o objetivo da ação é a autoridade executiva suprema; quarto, a rutura produz-se fora da legalidade ou numa zona cinzenta; e quinto, ao contrário de uma revolução, o golpe de Estado não procura uma mudança social e tende, em geral, a manter os cidadãos à margem.
Ora, se o primeiro, o terceiro, o quarto e o quinto critério podem ser objeto de debate à luz dos factos tunisianos, é forçoso constatar que o segundo critério não foi de forma alguma cumprido.
Nem o exército tunisiano nem a Brigada Antiterrorismo procuraram, através da sua intervenção, a tomada ou a conservação do poder.
As investigações sobre o 14 de janeiro demonstram que tanto a BAT como o Estado-Maior agiram sob o efeito da urgência e do caos informativo, sem qualquer intenção de se instalarem no comando do Estado.
Do mesmo modo, os demais critérios continuam sendo amplamente discutíveis, em particular o quinto, já que o povo não ficou de forma alguma numa situação de apatia ou de mero espetador perante os acontecimentos.
Assim, se resulta difícil considerar com exatidão, à luz das definições estruturalistas clássicas, os acontecimentos de janeiro de 2011 como uma revolução em sentido absoluto, seria igualmente inexato falar de golpe de Estado, ou mesmo de golpe de palácio.
Michel Dobry e a Dessetorialização Conjuntural
Perante este problema conceptual, podem ser mobilizados vários autores, encabeçados por Michel Dobry.
Este critica as abordagens estruturalistas clássicas da revolução, denunciando em particular a sua orientação historicista e determinista, que padece de uma "ilusão etiológica", um viés metodológico que consiste em reconstruir a história de forma retrospetiva, ligando de forma linear e artificial causas distantes com resultados observados.
Para Dobry, a queda do regime de Ben Ali entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 não pode ser explicada (unicamente) por uma fatalidade ditada por fatores estruturais (como o desemprego ou a desaceleração do crescimento); resulta também de um encadeamento estreito de micro-acontecimentos, contingências e confusões que muito bem poderiam ter desembocado em desfechos totalmente distintos.
Cada processo revolucionário tem elementos que lhe são próprios, e é vão imaginar que cada um responde a determinantes universais.
Dobry oferece chaves teóricas para desmontar a ideia de um golpe planeado graças ao conceito de dessetorialização conjuntural: durante o dia 14 de janeiro, o aparelho de segurança não se tornou subitamente irracional, nem se converteu no palco de um segredo obscuro.
Os seus atores viram-se antes mergulhados numa situação de total incerteza, onde os cálculos habituais deixam de funcionar e cedem lugar a uma lógica da situação.
Foi esta urgência que levou as forças de segurança a tomar decisões que jamais teriam adotado noutras circunstâncias, uma realidade documentada pelas investigações de Inkyfada e de Belkhodja e Cheikhrouhou.
Mas se a abordagem de Dobry permite conceber este levantamento como uma revolução que escapa à tese de um golpe planeado, fica uma questão crucial: como explicar que o antigo sistema tenha conseguido, apesar de tudo, sobreviver?
A Miragem da Tabula Rasa
Para responder a este enigma, L'Ancien Régime et la Révolution, de Alexis de Tocqueville, impõe-se como referência obrigatória: nesta obra o autor demonstra que as grandes convulsões, a começar pela Revolução francesa, são vítimas permanentes da ilusão da tabula rasa.
Esta representação apresenta a revolução como uma refundação absoluta, com um abismo que separa a antiga ordem da nova.
No entanto, a realidade histórica revela um processo muito mais lento e contínuo. Recordemos que, após 1789, a monarquia sobreviveu dois anos, período durante o qual Luís XVI permaneceu chefe de Estado, recorrendo em várias ocasiões ao seu direito de veto constitucional. E todavia, ninguém nega o caráter revolucionário do processo desde 1789.
A isso acrescenta-se o princípio fundamental da continuidade do Estado: as administrações e a burocracia central, forjadas sob a monarquia absoluta para centralizar o poder, não fizeram senão acentuar o seu papel sob a República, mantendo nos seus postos uma multidão de funcionários que tinham servido sob ambos os regimes.
É precisamente esta leitura tocquevilleana que permite compreender a transição tunisiana, em que grande parte do aparelho judicial, administrativo e de segurança permaneceu intacto depois do 14 de janeiro.
A administração pública prosseguiu as suas funções ordinárias sem se submeter a uma depuração sistemática, garantindo assim a continuidade material do Estado. Assim, para além da imagem coletiva de uma rutura brutal e instantânea, as transições revelam ser, na maioria das vezes, uma correlação de forças entre as novas forças revolucionárias e a resistência passiva das instituições herdadas do antigo regime. Isto não constitui, portanto, uma particularidade tunisiana.
O Pecado Original da Segunda República
Muitos outros autores defenderam também o caráter revolucionário ou golpista dos acontecimentos de 2010-2011 e poderiam ter sido mencionados aqui, mas este artigo não pretende ser exaustivo, nem trazer uma resposta definitiva à questão.
A sua ambição é antes chamar a atenção para o pecado original das forças políticas que dirigiram a transição tunisiana: a desconexão entre o "momento da rua" e o "momento da engenharia política".
Da Desconexão das Elites
Ao longo de toda a sua existência, a Segunda República colocou, com efeito, as disputas identitárias, sociais e políticas no vértice das suas prioridades.
Ao fazê-lo, os atores políticos exageraram as urgências socioeconómicas para fins puramente eleitorais, multiplicando as promessas populistas sem nunca oferecer resultados tangíveis. A isso acrescentaram-se os jogos de alianças e compromissos parlamentares, vividos pelos eleitores como traições, que alimentaram o desencanto.
A Ascensão da Narrativa Restauradora
Este esgotamento do mito revolucionário favoreceu a proliferação de discursos contrarrevolucionários, que poucas famílias políticas tinham interesse em desmentir, na medida em que lhes permitiam capitalizar a rejeição ao caos da transição.
Se o Nidaa Tounes abriu este caminho em certa medida, foi sobretudo o Partido Destouriano Livre que dele beneficiou a partir de 2019.
Apresentando-se como o legítimo sucessor do Agrupamento Constitucional Democrático e da linhagem do destour histórico, o PDL colocou-se rapidamente à cabeça das intenções de voto a partir de 2020.
Impulsionada pela sua presidente, Abir Moussi, esta corrente baseou a sua estratégia não só num discurso de restauração em matéria de segurança, diplomacia, política e sociedade, mas também numa batalha jurídica sobre a ilegitimidade da revolução.
O Momento Bonapartista
Esta trajetória foi, no entanto, interrompida pelo sismo político de 25 de julho de 2021.
Invocando um risco de perigo iminente, o presidente da República adotou medidas importantes: congelamento do Parlamento, levantamento da imunidade dos deputados, demissão do chefe de governo e concentração temporária do poder executivo.
Esta tomada de controlo do executivo foi recebida com entusiasmo por uma população exausta: um inquérito da Emrhod Consulting realizado a 27 de julho revelou que 87% dos tunisianos apoiava esta iniciativa, contra apenas 3% de opiniões contrárias.
Esta iniciativa, embora possa parecer contrarrevolucionária, não o é realmente, na medida em que se assemelha mais a um momento bonapartista do que a uma restauração.
A visão do presidente Kaïs Saïed inscreve-se no rastro de uma revolução nascida nas regiões interiores e depois confiscada a 14 de janeiro, o que explica a sua decisão de transferir o feriado nacional da Revolução para 17 de dezembro.
É, além disso, esta data simbólica, e não o 25 de julho, que os seus apoiantes escolheram em 2025 para manifestar o seu apoio.
É, portanto, prematuro qualificar a sua postura de contrarrevolucionária. Ele encarna antes uma conceção diferente do processo revolucionário, segundo a qual os corpos intermédios, como os partidos políticos, perverteram as aspirações populares para servir os seus próprios interesses.
Em definitivo, esta nuance semântica não é uma simples disputa de palavras sobre a existência ou não de uma revolução tunisiana em 2011. Constitui a chave de leitura indispensável para compreender as convulsões políticas que o país atravessa desde 2011.
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«Le Coup d'État révolutionnaire». Nawaat, 30 de julho de 2011. https://nawaat.org/2011/07/30/le-coup-detat-revolutionnaire/
«Ben Ali victime d'un coup d'État selon son avocat Akram Azouri». Tuniscope. https://www.tuniscope.com/ar/article/10607/actualites/tunisie/selon-282411
«Le 14 janvier est la date d'un coup d'État et non d'une révolution, selon Aziz Krichen». Business News, 18 de junho de 2013. https://businessnews.com.tn/2013/06/18/article-1111990/1111990/
«Abir Moussi : "Il n'y a jamais eu de révolution"». L'Économiste Maghrébin, 1 de agosto de 2017. https://www.leconomistemaghrebin.com/2017/08/01/abir-moussi-il-ny-a-jamais-eu-une-revolution/
«Abir Moussi : "Ce qui s'est passé en 2011 n'est pas une révolution"». Réalités Magazine, 7 de março de 2019. https://realites.com.tn/fr/abir-moussi-ce-qui-sest-passe-en-2011-nest-pas-une-revolution/
«Sociologie et révolutions : entretien avec Baudry Rocquin». Nonfiction.fr. https://www.nonfiction.fr/article-11309-sociologie-et-revolutions-entretien-avec-baudry-rocquin.htm
«Singh: The Myth of the Coup Contagion». Dagobah, 24 de outubro de 2022. https://dagobah.com.br/singh-the-myth-of-the-coup-contagion/
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